RIBEIRO, Antonio - O mais velho e esperto TST que conheci.
Nesses quase trinta anos de profissão, conheci muitos colegas, alguns se tornaram meus amigos e outros ficaram na história.
No início dos anos 90 eu ministrava muitos cursos de CIPA nas empresas e no SENAC, era uma época em que somente TST devidamente cadastrados pela DRT eram autorizados a ministrar o treinamento previsto na NR-05 e a carga horária era então de 18 horas.
Foi um tempo de bonanza, muito trabalho e bons rendimentos financeiros que me garantiram uma boa vida para mim e para a minha família. Sempre tive prazer em dizer que, como TST tinha uma boa casa, dirigia um bom carro e até sobrava para uma boa dose de Johnny Walker e férias de 15 dias na praia todos os anos.
Nestas andanças, certa vez o Rober Habu Anna, médico do trabalho, meu amigo e parceiro, me apresentou um certo Técnico em Segurança do Trabalho, seu nome era Antonio Ribeiro.
Ribeiro, como chamávamos, era um senhor de certa idade, talvez mais ou menos setenta anos, nunca perguntei quantos do seu tempo de experiencia, mas acredito que ele era dos mais antigos feitores - comuns na construção civil - que com o advento da Lei 6.514/77 ganharam do MTb o título de Supervisor de Segurança do Trabalho. Pouco entendiam da legislação vigente, tinham uma boa vivência prática nos canteiros de obra.
Era de estatura baixa, não mais do que um metro e sessenta, entroncado, baixinho, pele parda tendendo para negro, meio gordo e cara de indio misturado com nordestino.
Vestia trajes de malandro carioca, sapatos brancos, calça de tergal engomada e com vincos, camisa florida de gola sobre o paletó; um grande anel de pedra vermelha no dedo anular da mão direita e uma grossa corrente de ouro no pescoço. Tudo bem regado com uma boa e forte dose de almiscar que denunciava a sua presença a uma grande distância.
Era uma figura que não passava desapercebida nem em parque de diversões, parecia um bicheiro daquelas chanchadas do bechiga paulista.
Não escondia de ninguém que era casado e tampouco se constrangia em dizer que a sua mulher, já velha não dava mais conta do recado há muito tempo e que por isto, mantinha uma namorada fixa, uma "gatinha" dizia o velho Ribeiro quando se referia a sua namorada.
Também não se importava em cantar aos quatro ventos que no café da manhã comia meia duzia de ovos de pato com cerveja caracu, todos os dias, para manter a potência, afinar o óleo e dar conta da gatinha.
Ribeiro frequentava o bar e restaurante de um amigo gay, no centro da cidade para onde me convidou a ir comer uma feijoada no sábado e conhecer a sua "gatinha".
Conheci a gatinha do Ribeiro. Um dia desses qualquer eu falo da gata.
Dentre as peculiaridades que fazia do Ribeiro uma figura impar e admirável, uma era a forma como ele desempenhava a sua profissão de TSTe o seu relacionamento com os fiscais da DRT.
Antonio Ribeiro tinha doze CTPS, isso mesmo, doze carteiras profissionais e trabalhava como TST resgistrado em doze empresas diferentes, com doze patrões, uma duzia de salários e mais outro tanto de empresas em que atuava como "prestador de serviços"
Logo que fomos apresentado, ele sabendo que eu ministrava cursos de CIPA me convidou para ministrar o treinamento para os membros da comissão de uma de "suas" empresas, de cara me perguntou quanto eu cobrava.
Na época a moeda era o Cruzeiro e respondendo disse para Ribeiro que o valor pelo curso seria de CR$ 900,00 o que era um ótimo valor.
- Cr$ 900,00 retrucou.
- Sim. respondi.
- Tá certo, disse ele, continuou sem rodeios e perguntou:
- O que eu conseguir a mais, lá na empresa, é meu?
Espantado pela direta e rápida cantada de proprina, sem pensar direito respondi que sim, o que ele conseguisse a mais na empresa eu lhe pagaria a título de comissão, isso era normal, dar uma agradinho para o comprador da empresa ou para o TST.
- Tá certo, disse ele, vamos marcar a data e o horário do curso.
Na época havia uma enorme burocracia para se ministrar o curso da CIPA nas empresas. O TST era cadastrado na DRT, a cada treinamento tínhamos de fazer um ofício informando o nome da empresa, a data e horário do treinamento e os nomes dos funcionários que participariam do treinamento.
Não eram raras as vezes em que, durante o curso recebiamos a visita de um "fiscal" da DRT que acompanhava algumas horas do treinamento.
E, para finalizar o processo burocrático, ao final do curso havia um relatório de informações sobre a condução do curso, as matérias ministradas, o material didático utilizado e uma relação final dos participantes.
Em 1989 a portaria ___ modificou a CIPA e hoje qualquer um pode ministrar o curso da CIPA sem nenhuma burocracia.
Na data e horário combinado com o Ribeiro, compareci na segunda-feira para iniciar o curso. Era uma Transportadora e a CIPA era composta de oito componentes mais uma secretária.
Iniciamos os trabalhos as oito horas da manhã e pouco antes do almoço encerramos o primeiro dia do curso.
Ao final deste dia inaugural, antes de ir embora perguntei:
- Ribeiro, tenho que lhe trazer a Nota fiscal do treinamento para ser entregue na tesouraria e receber na sexta-feira, qual o valor da Nota?
- Calma, calma disse-me ele. vai dando o curso que estou negociando o valor.
- Tá certo! disse e fui embora.
Terça-feira, segundo dia de aula, final da aula pegunto: Ribeiro, qual o valor da Nota fiscal? Calma disse ele outra vêz, estou vendo o valor.
E assim se passou a quarta e a quinta feira, eu aprensivo para saber o valor que eu emitiria a Nota Fiscal, afinal eu dependia deste documento fiscal para também receber a minha parte de Cr$ 900,00 fora a comissão do velho Ribeiro.
Na sexta-feira, último dia do curso, já meio impaciente e meio ríspido disse:
- Ribeiro, preciso emitir a Nota Fiscal, você precisa me dizer o valor!
- Tá certo, tá certo respondeu ele, pode tirar a nota fiscal.
- De quanto, qual o valor? perguntei.
- Cr$ 2.000,00 disse ele.
- O quê!!!! 2.000? perguntei quase caindo de costas.
- Isso mesmo que você ouviu, do jeito que combinamos, a minha parte fora os teus Cr$ 900,00 você me entrega depois, lá no bar do Mario, pode ser no sábado?
Não estava acreditando naquilo, não era verdade, havia algum engano. A nota fiscal de Cr$ 2.000, sendo Cr$ 900,00 para mim que trabalhei a semana inteira e Cr$ 1.100,00 para o Ribeiro, não, não, não.
Mas, trato era trato, era quase contrato.
Na segunda feira seguine recebi o valor de Cr$ 2.000 e no sábado fui até o restaurante do amigo gay levar os Cr$ 1.100 do Ribeiro.
Naquele sábado a festa com a gatinha deve ter sido em suíte de primeira com direito a todas as mordomias.
Nunca mais caí noutra igual. Cada vez que ministrava um curso para uma das empresas do Ribeiro, o valor era pré combinado e em valores justos.
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