A Insalubridade e o Leite !
Depois daquele acidente com o arsênico, muitos patos, marrecos e galinhas mortas, muitos milhares de cruzeiros em multas e em indenização para os moradores e a construção de um novo setor que havia sido interditado, a vida continuou nesta nova empresa.
Por volta de 1985 troquei de emprego, outro bem melhor, salário triplicado. Saí de um grupo de empresas - construção civil, concreteira e metalurgia - para ingressar nessa indústria metalúrgica, com aproximadamente 300 empregados, no cargo de Gerente de Pessoal.
Logo no primeiro dia de trabalho me deparei com uma cena interessante, um caminhão descarregava algumas caixas de leite em saquinhos de um litro, três caixas com duas duzias de litros cada um.
Perguntando me informaram que era o leite para o pessoal da galvanoplastia, dois litros para cada um, trinta funcionários, o que totalizava em torno de sessenta litros por dia.
No horário do primeiro intervalo para repouso, na parte da manhã, os operários da galvanoplastia formavam um fila na porta da cozinha para pegar a quota diária do leite que levavam direto para o setor onde trabalhavam.
Pedro Murski era um alemão, quase dois metros, cabelo amarelo e braços peludo parecia um urso branco, boa gente, simpático, comunicativo sempre nos visitava no departamento pessoal, invariavelmente uma vez por semana para pedir um vale por conta do pagamento. A empresa nesse ponto era uma mãe e permitia esse tipo de benefício.
Um dia, aproveitando a visita do ursão, pensando em usá-lo como locutor da rádio peão, disse para ele que a empresa estava pensando em suspender a entrega do leite para o pessoal da galvanoplastia.
Assustado ele perguntou o por quê dessa decisão e eu tentei explicar-lhe que o leite não tinha nenhuma propriedade antídota contra os produtos químicos que existiam naquele setor, ao contrário, contribuiam para a inalação daqueles produtos químicos diretamente para o estômago; que o leite não ia para os pulmões, para onde eram inalados os produtos quimicos, etc, e tal.
Tal foi a minha surpresa quando, depois dessa explicação, quase em lágrimas o alemão pediu para que eu não fizesse isso, que esse leite iria fazer falta para ele que tinha cinco filhos, que todos os dias na hora do almoço ele levava aqueles dois litros de leite para as crianças que estavam esperando.
Santo Deus. O coração numa mão e o cérebro na outra. Eu tinha o poder de decidir.
E a pior notícia ainda ele não sabia e nem eu tive coragem para informá-lo: O adicional de insalubridade também iria ser suspenso tendo em vista que as novas instalações eram modernas, havia exaustão suficiente e novos equipamentos de proteção de respiração estariam sendo utilizados no mês seguinte.
Acontece que, mesmo contra a minha vontade e sem minha autorização a notícia da suspensão do leite e do adicional de insalubridade "vazou".
Fiquei sabendo do vazamento da notícia no final do expediente, por volta das dezoito horas saindo no portão da empresa fui cercado por trinta operários que queriam ter uma "conversinha" comigo.
Que estória era essa, perguntou um deles, de tirar do nosso salário o adicional de insalubridade, vai ter que explicar direitinho disse o "tição" negrinho de um metro e meio de altura e dois de valentia; e fui sendo cercado, aquado, tô ferrado, pensei.
Pensei rápido e disse:
- calma pessoal! não é nada disso, apenas vamos trocar o nome do vencimento, o adicional de insalubridade vai ser somado no salário, ninguém vai perder nada, no final do mês o valor vai ser o mesmo.
- Há bão! disse um deles.
Devagarinho eu fui explicando,os outros foram entendendo, eu suando mas ao final tudo certo.
Resumindo tive que convencer a diretoria da empresa para que se somasse o valor do adicional de insalubridade e de quarenta e cinco litros de leite no salário de cada um deles, extinguindo assim a entrega diária de leite e o famigerado adicionalde insalubridade, sem alterar o valor final do salário de cada um deles.
Os novos empregados não receberiam o adicional.
Ficaram todos felizes e eu livrei meu couro.
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