O Registro de Contrato de Trabalho de um Operário Morto em Acidente do Trabalho
A seleção brasileira de 82, segundo os entendidos, foi a melhor seleção brasileira formada em todos os tempos, sob a conduta do maestro Tele Santana os craques Zico, Sócrates, Junior, Falcão e cia., jogavam por música e venceram de forma brilhante os dois primeiros jogos da primeira fase.
O terceiro jogo seria no dia seguinte contra a Nova Zelândia. No primeiro jogo ganhamos da antiga União Soviética por 2x1, gols de Sócrates e Eder; no segundo jogo outro baile de bola onde enfiamos 4 a 1 na Escócia.
Na construtora onde era chefe do DP, trabalhavamos eu e mais três auxiliares naquela manhã tranquila em que o dia prometia transcorrer tudo dentro da normalidade de sempre. lá fora um forte vento soprava anunciando a vinda de chuva.
Por volta das nove e meia alguém entrou apressado pela porta de vidro que dava acesso ao escritório, na primeira porta a direita, logo no início do corredor estava o guichê de atendimento e a porta de entrada do departamento pessoal.
Assustado um dos empregados da oficina entrou gritando que havia acontecido um acidente no barracão da oficina e que parecia ser grave. Alguém caiu do telhado, gritava.
Corremos eu e mais algumas pessoas até o local que ficava aproximadamente cem metros de onde estávamos, chegando ao local me deparei com um corpo, imóvel, estendido sobre uma bancada de retífica de motores, de bruço não podia ver seu rosto e fiquei no momento sem saber quem estava ali, parecia morto.
Olhando para cima percebia-se um buraco no telhado de amianto, a telha quebrada demonstrava que não havia suportado o peso daquele pobre coitado, não tinha suporte por debaixo, rompendo e causando aquilo que anunciava ser uma tragédia.
Voltando ao corpo, sem tocá-lo, olhando por debaixo consegui ver o rosto do acidentado, era um desconhecido, quem era aquele homem perguntei para uma pequena multidão que rodeava o local.
Ninguém sabia, não era nenhum dos empregados, era um estranho, mas o que fazia aquele homem no telhado do barracão, perguntei novamente.
Quando alguém respondeu:
- Ele estava consertando o telhado, foi seu Haulin que mandou ele fazer o serviço.
Haullin Makários era o dono da empresa, empresário polêmico, descendente de libanês, sem muitas regras para conduzir seus negócios construiu um belo grupo de empresas atuando como "gato" nas grandes obras de construção de rodovias, iniciou seus negócios lá pelo início dos anos 70 na Bahia e havia mais ou menos cinco anos que atuava no estado do Paraná onde fundou a Construtora de obras viárias, uma metalúrgica e uma concreteira.
Com aquele corpo alí estático, fui informado que o patrão havia chamado aquele homem para fazer a limpeza dos telhados dos barrações e nada avisou ao departamento pessoal a presença do fulano.
- Ele está respirando, disse alguém!
- Vamos levar esse cara para o hospital! disse o Mauro, meu auxiliar.
A construtora, nosso local de trabalho, ficava afastado a mais de cinco quilômetros do hospital mais próximo e a via de acesso era uma estrada esburacada e poeirenta, naqueles tempos não havia atendimento por sistemas de emergência que chegasse rápido ao local de qualquer acidente e por isto a tarefa de levar o acidentado para o atendimento médico era nossa obrigação imediata.
A velha Ford Belina marron serviu de ambulância, o corpo do homem que ainda respirava foi colocado no porta malas e eu de motorista, acompnhado pelo mauro que ia segurando o corpo, em alta velocidade entrei pela estrada esburacada e poeirenta em direção ao pronto socorro em São José dos Pinhais.
O vento soprava mais forte, quase onze da manhã as nuvens esconderam o sol, parecia fim da tarde, escureceu rápido e uma forte chuva se avistava no horizonte, sacolejando o corpo que o Mauro tentava manter no lugar eu dirigia para a cidade em busca do atendimento para aquele pobre homem.
Depois de pouco mais de uma hora, voltamos para o escritório, era intervalo de almoço e algumas pessoas se aproximaram perguntando como estava o homem, não sabemos disse, deixamos lá no hospital aind vivo, mas parecia muito grave e havia sinais de fratura da coluna vertebral e um forte impacto na cabeça.
Nesse mesmo instante outro auxiliar do DP me informou que se tratava de um senhor morador próximo á empresa, que o patrão através de um vizinho chamou para fazer a linmpeza no telhado da oficina; mas o nome dele ninguém sabia.
Depois de algumas indagações ficamos sabendo do seu nome e onde morava.
Imediatamente mandei alguém até a residencia do acidentado chamar alguém da família e poucos minutos depois uma senhora, esposa daquele homem veio até o DP, chorando disse que foi informada por um vizinho sobre o acidente.
Alguns poucos minutos de conversa eu disse:
- O seu marido tem Carteira Profissiona?
- Sim respondeu a mulher.
- Pois bem, então vá até a sua casa e me traga agora toda a documentação do seu marido, CTPS, RG e tudo o que a sra. encontrar.
Meus auxiliares que estavam próximos, com o olhar de espanto, um deles perguntou:
- O que você vai fazer?
- Vou fazer o registro de empregado daquele homem. Respondi.
- Você está louco! exclamou o Mauro.
- Acho que ainda não. retruquei.
_ Mas... como ele vai assinar os documentos? perguntou-me o outro.
- A gente dá um jeito!
Pouco tempo depois a mulher retornou com os documentos do acidentado.
Chamei o Mauro, entreguei-lhe os documentos dizendo:
- Registra o homem, carpinteiro, disse.
- Você ta doido chefe! retrucou o Mauro com os olhos arregalados.
- E a assinatura? Perguntou o outro.
- Nada que uma mão esquerda não possa fazer. Respondi.
Naquela mesma noite, as 23:00 h. ele faleceu.
Morreu, estava empregado, mesmo que na experiência, com apenas dois dias de trabalho.
O Seguro contra Acidentes do Trabalho, um dos melhores benefícios da previdência, não tem carência nenhuma para garantir ao empregado acidentado no trabalho toda a assistência necessária, inclusive aposentadoria por invalidez e, no caso de morte do segurado, pensão para os dependentes.
Interessante.
E chegou o dia do jogo mais esperado da primeira fase daquela copa do mundo de 1982 . Brasil x Rússia ( URSS - União Soviética) e todos estávamos ansiosos porque trabalharíamos somente até o meio dia e todos seriamos dispensados para ver o jogo que seria as duas da tarde.
Eu já estava dentro do ônibus da empresa, pronto para ir embora quando alguém se aproximou e me disse:
- Seu Haullin quer você no escritório central agora.
O Escritório central ficava em Curitiba, mais de quarenta quilômetros de distância.
- Há não! Hoje não! Logo agora, quase na hora do jogo, o que este turco quer comigo?
Pensei então, vou correndo ver o que ele quer e ainda dá tempo de ir para casa ver o jogo.
Me mandei para o escritório do homem.
O prédio do Centro Comercial Itália, o CCI fora recém construído nas esquinas das Ruas João Negrão com a Marechal Floriano, era o prédio mais alto da cidade e recém inaugurado virou o ponto administrativo mais procurado para escritórios das grandes empresas que ali se instalavam.
Correndo peguei o elevador, apertei o botão do 23° andar onde estava a fera, que muitos sabiam do seu mau humor e a falta de educação que tinha com as pessoas.
Chegando fui recebido pela Eliane, coitada da secretária, ou coitado de mim que fui recebido por ela com um olhar misto de medo, espanto e pena, de mim claro, pois ela já sabia do assunto. Eu desconfiava. Devia ser o morto.
Entrei na sala do poderoso e junto com ele estava o advogado da empresa.
Fui recebido por ambos que, do alto de seus poderes econômico e jurídico, me fuzilaram com seus olhares nada amigáveis.
- Que estória e essa do cara morto? Perguntou-me o poderoso já de cara.
- Aquele que o Sr. Mandou trabalhar no telhado sem me avisar? Perguntei de uma forma bem desaforada.
- Sim, esse mesmo, é verdade que você fez o registro de empregado do cara morto? Continuou perguntado o patrão.
- Sim, isso mesmo, Respondi.
O advogado entrou em ação dizendo:
- Mas isso é fraude contra o INPS (naquele tempo era assim denominada a previdência de uma forma genérica)
Olhei para o advogado, de forma desafiadora disse:
- Vc. Queria o quê? Responder perante o ministério do trabalho por ter um trabalhador morto, dentro da empresa e sem registro de trabalho? Falei já levantando o tom de voz e pensando: não vou deixar esses caras me massacrarem.
- E tem mais! Continuei falando e olhando para o advogado.
- O que você quer é ver o circo pegar fogo, a empresa ser multada pelo INPS, processada pela família do morto e, com isto, ter serviço e faturar em cima da desgraça alheia.
Falava e de soslaio olhava para o relógio, faltavam menos de dez minutos para começar o jogo. Preciso sair logo daqui, pensei.
- Você é um burro! Disse para o advogado que estalou os olhos me olhando incrédulo.
Mal acabei de elogiar o nobre causídico quando o patrão, dando um murro na mesa, gritou:
- Você está despedido!
Ta bom! e para a surpresa deles, me levantei e saí em direção à porta.
Não queria perder um minuto sequer do jogo.
Foi um jogão. Brasil venceu fácil a Nova Zelãndia por x 0 com direito a show de bola, dois gols de Zico, um de Falcão e mais um de Sérginho
E eu estava despedido.
Quita-feira, pela manhã fui trabalhar normalmente, cumprimentei o Rubens Cividanes, outra grande figura, meio louco mas boa gente, sócio gerente administrativo do grupo que nada me falou,penso que nada sabia.
Fui para o DP e todos me olhavam de lado, meio assustados, curiosos querendo saber o que houve no dia anterior na sala do patrão.
Rapidinho contei tudo dizendo que eles teriam novo chefe.
A Gazeta do Povo é o maior jornal do Paraná, circula em Curitiba e publica os melhores anúncios de emprego no estado.
Depois de ler a página de esportes, dando conta da bonita vitória do Brasil na Copa do Mundo, passei para o cadernos de classificados, sem maiores intenções, mesmo sabendo que estava com a minha batata assando, ou melhor, queimando, mas o negócio era começar a se preocupar na busca de um novo emprego.
Na primeira página do caderno de classificados, estampado em um quarto de página o anúncio dizia:
INDÚSTRIA METALÚRGICA DE MÉDIO PORTE
PROCURA
ENCARREGADO DE DEPARTAMENTO PESSOAL
- Ótimo Salário – Benefícios –etc.
- Exigências e tal.
Não pensei duas vezes, abandonei rapidamente a sala, disse para os auxiliares que estava indo até Curitiba e voltava depois do almoço.
Fui até a empresa, preenchi os documentos de costumes, passei por uma primeira entrevista e foi marcada uma prova de conhecimentos para segunda feira.
Na sexta-feira seguinte fui trabalhar normalmente, cumprimentei o diretor administrativo que me falou:
- Mas você é doido hém! Chamar o advogado de burro na frente do patrão.
Ops! Pensei, a estória já correu.
E aí? O que mais o senhor está sabendo, o que mais o Haullin falou? perguntei ansioso.
- Não, não falou mais nada, só me falou isso dando gargalhadas da cara do advogado depois que você falou isso e saiu da sala.
- Não acreditei naquilo. Mas eu não fui despedido? perguntei-lhe.
- Claro que não! pode trabalhar tranqüilo, respondeu ele.
Voltei a trabalhar surpreso com aquela notícia. Chamei o cara de burro, gritei com o patrão, saí da sala dele e deixei-os falando sozinhos e não estou demitido?
Segunda-feira voltei naquela industria metalúrgica, fiz o teste de conhecimentos específicos em legislação do trabalho e técnicas trabalhistas de departamento pessoal.
Na sexta-feira pela manhã, toca o telefone, atendo, uma ligação da metalúrgica informando que fui o candidato escolhido.
E alguns dias depois a seleção brasileira, a melhor de todos os tempos foi surpreendida no Estádio Sarriá pelo carrasco Italiano R. Rossi quando perdemos por 3 a 2 para a Itália.
Quero finalizar essa estória dizendo que pedi demissão, novo emprego, salário quatro vezes maior naquele que foi o meu melhor emprego.
Três anos depois encontrei com a viúva daquele acidentado que quase chorando me abraçou dizendo que estava recebendo a pensão do falecido e que tinha rezado muito por mim.
Só lhe disse: muito obrigado, suas preces foram atendidas.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
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